01 julho 2008

Era uma vez um túnel [replay]


Passado um ano desde a conclusão da saída do túnel do Carregal (atravessa a baixa Portuense desde a extinta Praça Filipa Lecanstre até à rua Dom Manuel II),à qual precederam meses de acesos debates públicos entre a Câmara Municipal do Porto e o Ministério da Cultura juntamente com o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), chegou a hora de refletir acerca da solução encontrada. Recorde-se que a opção escolhida corresponde à primeira e única proposta do Presidente da Câmara Municipal Rui Rio - de seguida declinada pelo IPPAR, devido à proximidade com o Palácio das Carrancas, que alberga o Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR). Após meses de confronto político, e inoperância do IPPAR na busca de uma alternativa, a opção ‘A’ foi aceite. Deste modo, a nova saída comprometeu-se na criação de uma praça capaz de limitar a circulação automóvel, não obstante, sem a impedir. Porém a realidade corroborou o dificil convívio que existe, no Porto, entre o peão e o automóvel.
Contraditoriamente ao prometido – um espaço de estar exterior de valorização do MNSR – esta “praça” criou novos inconvenientes ao Palácio das Carrancas [1]. O espaço reservado aos peões converteu-se num novo estacionamento ilegal defronte da porta de entrada do museu. A inutilidade da praça agudiza-se, ainda, na circulação automóvel (este arruamento é um dos mais movimentados da baixa). O novo pavimento em granito tornou inviável a sinalética automóvel no solo, o que pode dificultar o entendimento entre a saída e a entrada do túnel para o condutor menos cauteloso.
Nesta encruzilhada, o murete que delimita o túnel reflete todas as ambiguidades da proposta. Devido à polémica suscitada pela túnel a primeira premissa a optar deveria ser a descrição. Todavia a sua presença afirma-se como um obstáculo visual para o transeunte e um objecto arquitectónico pesado para o cruzamento. A sempre consensual placagem de granito não serve para atenuar a complexa confluência de arruamentos. A opacidade do material impede a leitura do espaço urbano como lhe acrescenta maior confusão.

Da polémica gerada apenas a publicidade gratuita oferecida durante longos meses ao MNSR se mostra como factor positivo. Contudo inconsequente para uma solução satisfatória para a cidade e em particular para o museu.

#André Guerreiro [arquitecto]
publicado em setembro de 2007
[1] Carranca.substantivo feminino 1.cara feia; 2.semblante carregado ou sombrio que revela mau humor, má disposição, raiva, etc.; cenho; 3. máscara; ARQUITECTURA ornato escultórico constituído por cara de feições grotescas, de pedra, madeira, metal, gesso ou cimento, usada em diferentes construções e também em chafarizes, argolas e batentes de porta;